Como ler as três colunas
Esta é a parte que muda tudo. O mesmo resultado pode receber três leituras diferentes,
e o laudo do laboratório só te mostra uma delas.
BaixoAbaixo daqui, quase todo mundo tem sintoma. Nem sempre
o laboratório sinaliza.
LaboratórioA faixa impressa no seu laudo. Foi construída para
apontar doença, não para apontar bem-estar.
OtimizadoOnde eu trabalho na consulta. É a faixa de quem
quer disposição, e não só ausência de diagnóstico.
Repare no que acontece quando você compara as duas últimas colunas. Na maioria dos exames desta
lista, o piso do laboratório fica muito abaixo do que seria bom. Não é erro do laboratório: a
referência dele existe para responder uma pergunta específica — “esta pessoa tem doença?”. É uma
pergunta legítima, e é outra pergunta.
1. O painel do ferro
Estes vão sempre juntos no meu pedido. Nenhum deles conclui sozinho.
Ferritina
ng/mL · mulheresBaixo< 30
Laboratório15–150
Otimizado70–100
O exame central. Mede o estoque de ferro, não o ferro que está circulando. O laboratório só sinaliza abaixo de 15 porque a partir dali costuma haver anemia — mas queda de cabelo, cansaço e falta de ar aparecem muito antes disso.
Ferritina
ng/mL · homensBaixo< 50
Laboratório30–400
Otimizado100–150
A faixa do laboratório para homens é larga a ponto de não dizer quase nada: 30 e 400 recebem o mesmo carimbo de normal.
Saturação de transferrina
%Baixo< 20
Laboratório20–50
Otimizado30–40
O par obrigatório da ferritina. Mostra quanto ferro está de fato disponível para uso. É o exame que denuncia quando a ferritina veio falsamente normal.
Ferro sérico
µg/dLBaixo< 60
Laboratório60–170
Otimizado90–130
Varia muito ao longo do dia e com a última refeição. Sozinho não conclui nada — só faz sentido lido junto com a saturação.
Transferrina
mg/dLBaixo—
Laboratório200–360
Otimizado250–300
A proteína que transporta o ferro. Sobe quando o corpo está tentando capturar mais ferro.
Capacidade de ligação (TIBC)
µg/dLBaixo—
Laboratório250–450
Otimizado250–350
Costuma estar alta na falta de ferro — o corpo abre mais vagas de transporte justamente porque falta carga.
Hemoglobina
g/dL · mulheresBaixo< 12
Laboratório12–15,5
Otimizado13–14,5
Quando a hemoglobina cai, a falta de ferro já vem de longe. É o último indicador a alterar, não o primeiro.
VCM
fLBaixo< 80
Laboratório80–100
Otimizado85–92
O tamanho médio da hemácia. Cai na falta de ferro e sobe na falta de B12 — quando os dois faltam juntos, um mascara o outro e o VCM sai normal.
RDW
%Baixo—
Laboratório11,5–14,5
Otimizado< 13
Mede o quanto as hemácias variam de tamanho entre si. Costuma subir antes de qualquer outro sinal no hemograma.
2. O que pode falsear a ferritina
Sem estes, você não sabe se pode confiar no número que leu acima.
PCR ultrassensível
mg/LBaixo—
Laboratório< 3,0
Otimizado< 0,5
Este é o exame que salva a leitura de todos os outros. Se ele estiver alto, a ferritina provavelmente subiu junto — e o resultado não pode ser lido como estoque de ferro.
VHS
mm/hBaixo—
Laboratório< 20
Otimizado< 10
Outro marcador de inflamação. Mais lento e menos específico que o PCR, mas útil como segunda opinião.
Hemograma completo
—Baixo—
Laboratório—
Otimizado—
Não é um número, é o retrato. Leucócitos e plaquetas alterados junto com a ferritina alta quase sempre apontam para inflamação, não para ferro sobrando.
3. O check-up ampliado
Quando o cansaço não se explica só pelo ferro, é aqui que a resposta costuma estar.
Vitamina D (25-OH)
ng/mLBaixo< 20
Laboratório≥ 30
Otimizado60–100
30 é o piso para não ter doença óssea. Não é a faixa de quem quer disposição, humor e imunidade funcionando — são objetivos diferentes.
Vitamina B12
pg/mLBaixo< 200
Laboratório200–900
Otimizado> 500
A zona entre 200 e 400 é onde mora a maior parte dos sintomas que o laboratório chama de normal: formigamento, memória ruim, dificuldade de concentração.
Ácido metilmalônico
µmol/LBaixo—
Laboratório< 0,40
Otimizado< 0,27
O exame que confirma a B12 quando ela vem naquela zona cinzenta. Sobe quando falta B12 de verdade dentro da célula.
Homocisteína
µmol/LBaixo—
Laboratório< 15
Otimizado< 8
Sobe quando falta B12, B6 ou ácido fólico. Serve como confirmação e como marcador de risco cardiovascular ao mesmo tempo.
Ácido fólico
ng/mLBaixo< 3
Laboratório3–17
Otimizado> 10
Anda de mãos dadas com a B12. Repor um sem checar o outro pode mascarar a falta do segundo.
Zinco
µg/dLBaixo< 70
Laboratório70–120
Otimizado100–120
Entra na mesma conversa da queda de cabelo, da imunidade e da cicatrização. Compete com o ferro na absorção, então a ordem da reposição importa.
Insulina de jejum
µU/mLBaixo—
Laboratório2–25
Otimizado< 6
A faixa do laboratório é tão larga que praticamente ninguém sai alterado. E a insulina sobe anos antes da glicose.
HOMA-IR
índiceBaixo—
Laboratório< 2,5
Otimizado< 1,5
Calculado a partir da glicose e da insulina de jejum. É a forma mais barata de enxergar resistência à insulina antes de qualquer diagnóstico.
Glicose de jejum
mg/dLBaixo—
Laboratório70–99
Otimizado75–90
O exame que todo check-up pede. Só que ele é o último a alterar — quando ele muda, o processo já está rodando há muito tempo.
Hemoglobina glicada
%Baixo—
Laboratório< 5,7
Otimizado< 5,3
A média dos últimos três meses. Atenção: anemia por falta de ferro pode alterar este exame — mais uma razão para não pedir os dois separados.
TSH
mUI/LBaixo—
Laboratório0,4–4,5
Otimizado1,5–2,5
Pedir só o TSH é o erro mais comum da lista. Ele pode estar dentro da faixa com a tireoide já não entregando o que deveria.
T4 livre
ng/dLBaixo—
Laboratório0,8–1,8
Otimizadometade superior
É o hormônio em si, e não o comando do cérebro. Sem ele, o TSH conta metade da história.
T3 livre
pg/mLBaixo—
Laboratório2,3–4,2
Otimizadometade superior
A forma ativa. Cai em quem está em restrição alimentar prolongada ou sob estresse crônico.